Diretórios e Regulamentos do Instituto Missionário da Palavra
DIRETÓRIO DE VOCAÇÕES
INTRODUÇÃO
1. A abundância de vocações é algo que caracterizou à congregação nestes primeiros dez anos de vida. Temos que ser conscientes de que é um dom gratuito de Deus para nosso Instituto, e, no que nos é dado, temos que nos perguntar as razões do beneplácito divino, para responder com fidelidade. Pensamos que são:
- A urgente necessidade da Igreja.
- A fidelidade ao carisma institucional.
- O testemunho e alegria de sacerdotes e seminaristas.
- A pregação de exercícios.
- A fidelidade ao carisma institucional.
- O testemunho e alegria de sacerdotes e seminaristas.
- A pregação de exercícios.
Estamos certos na fé de que Deus quer ministros para sua Igreja e quer seguidores de Cristo segundo os conselhos evangélicos. O amor de Deus, da Igreja e das almas nos impõe o trabalho apostólico vocacional, no suscitar, promover, discernir, aconselhar, respirar, acompanhar e formar vocações à vida consagrada e sacerdotal. Por experiência sabemos que ainda nos lugares mais difíceis e humanamente mais pobres Deus suscita vocações.
É intrínseca ao fim da Evangelização da Cultura e ao carisma do Instituto a pastoral das vocações, já que os Conselhos Evangélicos são parte integrante da mensagem da salvação, e os que os seguem põem especialmente de manifesto a "índole escatológica da Igreja" )(LG), sendo o ornato da Esposa de Cristo.
CAPÍTULO 1: OS CHAMADOS
Os chamados de Deus
2. Dentro do plano divino que conduz todas as coisas e especialmente ao homem de modo livre para o fim, há distintos chamados de Deus. Três são os principais, ou seja:
- O chamado ao ser, à existência. É comum em tudo o que existe: pássaros, plantas, astros, flores, peixes, estrelas, etc. Este chamado é a passagem do não-ser ao ser.
- O chamado à santidade, à vida eterna. É comum em todos os homens, porque Deus...quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade (1 Tim 2,4). Esta chamada é a passagem do pecado à graça.
- O chamado a um estado de vida, pelo qual a uns chama ao matrimônio e a outros à vida consagrada. Este chamado é a passagem a uma vida de perfeição.
Os chamados à vida consagrada
Os chamados à vida consagrada
3. Cinco são até agora, as distintas vocações à vida consagrada, ou seja:
- Vocação ao sacerdócio,
- Vocação ao diaconato permanente,
- Vocação religiosa,
- Vocação missionária e
- Vocação a secularidade consagrada.
- Vocação ao diaconato permanente,
- Vocação religiosa,
- Vocação missionária e
- Vocação a secularidade consagrada.
CAPÍTULO 2: O CHAMADO EM SI
Artigo 1: Natureza da vocação consagrada
4. Os elementos essenciais da vocação à vida consagrada são dois:
1º O chamado de Deus e
2º O chamado da Igreja.
2º O chamado da Igreja.
Artigo 2: Deus chama
5. Que Deus chama aos homens a determinada vocação se conhece por inumeráveis testemunhos da Sagrada Escritura, como ser, a vocação do Povo de Deus, a de Abraão, Moisés, Josué, Samuel, David, Jeremias, Isaías, Oséias, etc., e no Novo Testamento com as vocações de Jesus, dos primeiros discípulos, Leví-Mateus, os doze Apóstolos, o jovem rico, São Paulo, da Virgem Maria, etc. Ele disse: Não são vocês os que me escolheram, senão que eu os escolhi (Jo 15,16).
6. "Os que sentem em seu coração o desejo de abraçar este estado de perfeição e de santidade, podem acreditar, sem dúvida alguma, que tal desejo vem do céu, porque é muito generoso e está muito por cima dos sentimentos da natureza", dizia São João Bosco.
Artigo 3: A Igreja chama
7. "A vocação divina deve receber confirmação, aceitação e direção oficial por parte da suprema hierarquia, a que o mesmo Deus confia o governo da Igreja". De modo tal que ninguém pode sentir-se chamado definitivamente apesar dos dotes que o possam adornar e da reta intenção, se não o chama a Igreja.
Artigo 4: A idoneidade
8. Há um terceiro elemento que é efeito do chamado de Deus, e, por sua vez, é condição para que a Igreja chame: é a idoneidade. A idoneidade que o candidato deve ter deve ser tripla: Física (e psíquica), intelectual e moral (que implica ter reta intenção). Se não houver idoneidade é sinal de que Deus não chama e, portanto, a Igreja não deve chamar.
Artigo 5: Seleção do candidato
9. A autoridade eclesiástica não só tem o direito mas também o dever de utilizar todos os meios necessários para conhecer a idoneidade do candidato e assim poder fazer uma rigorosa seleção. Por isso se preceitua no Código de Direito Canônico que a autoridade correspondente "tem que certificar que o candidato possui as qualidades necessárias para receber a ordem, isto é, doutrina reta, piedade sincera, bons costumes e aptidão para exercer o ministério; e igualmente, depois da investigação oportuna, fará constar seu estado de saúde física e psíquica"; deve-se provar "de maneira positiva a idoneidade do candidato".
10. Ensina Pio XI: "(os Superiores) devem ajustar-se à solução mais segura, que em semelhantes casos é a melhor para os jovens, porque os afasta de um caminho que poderia conduzi-los à condenação eterna".
11. Entre nós é costume fazer seleção no período anterior ao ingresso ao Noviciado, sendo o Superior Provincial o responsável pela admissão ou não do candidato, e além disso, o Mestre de noviços durante o tempo de Noviciado deve seguir fazendo seleção. Antes da admissão às sagradas ordens deve fazer-se rigorosa seleção e se os Superiores tiverem tão somente alguma dúvida positiva ou, inclusive, desconhecimento do candidato, há que dizer-lhe que não o vê com vocação para nossa Congregação. Logo, deve fazer-se seleção com ocasião dos informes para as ordens, em especial, para o diaconato e o presbiterado.
Artigo 6: O Concílio Vaticano II ensina
12. Nos Decretos do Concílio Vaticano II sobre os Presbíteros e sobre a Formação sacerdotal se recorda este ensinamento: "O Pastor e Bispo de nossas almas de tal maneira constituiu a sua Igreja, que o povo que adquiriu com seu sangue tivesse que ter sempre e até o fim do mundo seus sacerdotes. Reconhecendo esta vontade de Cristo, os Apóstolos por sugestão do Espírito Santo, acreditaram dever seu escolher ministros que fossem idôneos para ensinar também a outros (2 Tim 2,2)... assim, primeiro ponham os presbíteros empenho supremo em pôr ante os olhos dos fiéis pelo ministério da palavra e pelo próprio testemunho de sua vida, a excelência e necessidade do sacerdócio e àqueles jovens ou adultos, a quem julgar idôneos para tão grande ministério, ajudem-nos sem olhar a cuidados nem sacrifícios de nenhum gênero, a que se preparem devidamente". "O dever de fomentar as vocações afeta a toda a vida cristã ... a divina providência encomenda aos legítimos ministros da Igreja o que, uma vez comprovada a idoneidade, chamem aos candidatos que pedem tão alto ministério, com intenção reta e plena liberdade, e, uma vez bem conhecidos, consagrem-nos com o selo do Espírito Santo, para o culto de Deus e serviço da Igreja".
CAPÍTULO 3: COMO CHAMA DEUS?
13. O chamado de Deus ordinariamente é interior. É Deus quem de dentro inspira às almas o desejo de abraçar um estado tão alto e excelso como é o da vida consagrada. Podemos reconhecer dois passos.
Artigo 1: Deus nos faz conhecer o bem do estado religioso
14. Há quem diz que para que haja autêntica vocação é necessário ser chamados diretamente pela voz do Senhor de modo extraordinário como quando chamou a Pedro ou André, aí sim não há que demorar e ingressar imediatamente. Mas quando o homem é chamado só interiormente, então é necessária uma larga deliberação e o conselho de muitos para conhecer se o chamado procede realmente de uma inspiração divina.
A estes dizemos com Santo Tomás: "Réplica cheia de erros". O desejo interior e desinteressado de abraçar o estado religioso é autêntico chamado divino, por ser um desejo que supera a natureza, e deve ser seguido imediatamente; hoje como ontem são válidas as palavras de Jesus na Escritura. O conselho “se quer ser perfeito vai, vende tudo o que tem e dê aos pobres”(Mt 19,21) dirigia-se Cristo a todos os homens de qualquer tempo e lugar: qualquer que tenha deixado casa ou irmãos... por causa de meu nome, receberá cem vezes mais e possuirá a vida eterna. E assim todos, ainda hoje, devem receber este conselho como se o ouvissem dos mesmos lábios do Senhor. E quem por este se determine pode pensar licitamente que recebeu a autêntica vocação religiosa. "Tendo ouvido -diz a este propósito São Jerônimo- a sentença do Salvador se quer ser perfeito, “vai vende tudo o que tem e dê aos pobres e logo vêem e me siga”: traduz em obras estas palavras e seguindo nu a Cruz nua subirá com mais prontidão a escala de Jacó".
Este conselho que Cristo deu, é um conselho divino para todos. O que eu digo a vocês o digo a todos (Mc 13,37) disse à multidão, porque todas as coisas que foram escritas, são para nosso ensinamento (Rm 15,4). É um engano pensar que estas coisas só tiveram valor em sua época. "Se todas estas coisas se pregaram só para os contemporâneos, nunca teriam sido escritas. Por isso foram pregadas para eles e escritas para nós".
Artigo 2: Deus nos incita a abraçar esse bem por um chamado interior
15. O modo ordinário como Deus suscita as vocações é interior, pelas divinas insinuações do Espírito Santo à alma. Modo que precede a toda palavra externa já que "o Criador não abre sua boca para ensinar ao homem sem lhe haver falado antes pela unção do Espírito". Portanto o chamado interior é autêntico chamado de Deus e deve ser obedecido imediatamente, como se o ouvíssemos da voz do Senhor.
É característico do chamado divino, impulsionar aos homens a coisas mais altas. Por isso nunca o desejo de vida religiosa, ao ser tão excelso e elevado, pode provir do demônio ou da carne; "muito alheia coisa aos sentidos da carne é esta escola em que o Pai é escutado e ensina o caminho para chegar ao Filho. E isso não o obra pelos ouvidos da carne, mas sim pelos do coração".
16. Tal chamado de Deus é o "próprio fundamento sobre o que se apóia todo o edifício" pois a "vocação religiosa e sacerdotal não pode provir senão do Pai das luzes de quem descende todo bom dom e toda dádiva perfeita(Lc 1,17)".
17. "Devemos obedecer sem vacilar um momento e sem resistir por nenhum motivo, as vozes interiores com que o Espírito Santo move à alma", o Senhor me abriu o ouvido e eu não resisti nem me voltei atrás (Is 50,5), recordando que todos os que se regem pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus pois são os "regidos pelo impulso da graça". Há que advertir o conselho de São Paulo procedam segundo o espírito (Gal 5,25) e ser homens de princípios sobrenaturais que só se deixem conduzir pelo espírito de Jesus Cristo que é o Espírito Santo, realizando com prontidão seu chamado. Que não devamos nos lamentar como o fez Santo Agostinho "convencido já da verdade, não tinha nada mais absolutamente que responder, a não ser umas palavras lânguidas e sonolentas: logo, sim, logo: e o ‘me deixe outro pouco' se fazia já muito longo ... eu me envergonhava muito porque ouvia o murmuro daquelas ninharias (mundanas e carnais) que me deixavam indeciso".
18. Os que desconfiando irracionalmente do chamado divino afastam uma vocação, devem cuidar-se como se tratasse de um grande crime, pois afastam a uma alma do conselho divino; estes tais devem fazer-se eco da advertência de São Paulo Não apaguem o Espírito(I Tes 5,19): "Se o Espírito Santo quer revelar algo a alguém em qualquer momento, não impeçam a esse tal fazer o que sente". Por conseguinte quando um homem é impulsionado por inspiração do Espírito Santo a entrar em religião, não o deve deter, mas sim imediatamente o deve alentar e acompanhar para que concretize esse impulso. É totalmente censurável e deplorável a conduta de quem retarda uma vocação interior, esses tais resistem ao Espírito Santo, vocês resistem sempre ao Espírito Santo (At 7,5)..
Artigo 3: Quando e a quem se tem que consultar sobre a vocação
19. Não devem duvidar de sua vocação aqueles a quem foi inspirado o desejo de entrar em religião. Só lhes cabe pedir conselho em dois casos: um, com respeito ao modo de entrar, e outro, com respeito a alguma trava especial que lhes sugira o tomar o estado religioso. Em tais casos, sempre se deve consultar a homens prudentes que com juízo sobrenatural (e não movidos pela paixão), possam ajudar ao discernimento da vontade de Deus. Nunca aos parentes, pois não entram neste caso na categoria de amigos, senão na de inimigos da vocação, segundo aquilo do profeta Miquéias os inimigos do homem são seus familiares (7,6), frase que entrevista nosso Senhor em São Mateus (10,36). Só se deve consultar com um sábio e prudente diretor ou confessor. Vá tratar de santidade com um homem sem religião e de justiça com um injusto... Não tome conselhos destes sobre tal coisa, senão consulte de contínuo com o varão piedoso, ao qual se tem que pedir conselho se houvesse neste caso algo que se precise consultar.
Artigo 4: Adversários das vocações
20. Se sempre houve inimigos das vocações à vida consagrada, com maior razão haverá nestes tempos de cru ateísmo, de ateísmo militante, por ser as vocações uma das maravilhas de Deus. Houve duas heresias neste assunto: Uma a de Joviniano (viveu em Roma e morreu em 406) que equiparava o matrimônio à virgindade; outra, a do Vigilancio (viveu nas Gálias e morreu em 490) que equiparava as riquezas à pobreza. Ambos têm este comum denominador: Apartam aos homens do espiritual, escravizando-os às coisas terrenas. Isto faz o diabo por meio de homens carnais: impedir que os homens sejam transformados em vista à vida eterna.
21. Surgem novos Jovinianos e Vigilancios que de mil maneiras e com toda astúcia afastam aos homens da vida religiosa e das vocações à vida consagrada. Perverso intento que tem um antecedente na atitude do Faraó que repreendeu a Moisés e a Aarón que queriam tirar do Egito ao povo eleito: Como é que vocês...distraem ao povo de suas tarefas? (Ex 5,4). Ao que comenta Orígenes: "Hoje também se Moisés e Aarón, quer dizer, uma voz profética e sacerdotal, induz uma alma ao serviço de Deus, a sair do mundo, a renunciar a tudo o que possui, a consagrar-se ao estudo da lei da palavra de Deus, ao ponto ouvirão dizer aos amigos do Faraó que pensam como ele: Vejam como seduzem aos homens e pervertem aos adolescentes. Estas eram então as palavras do Faraó; estas repetem hoje seus amigos".
Artigo 5: Características da resposta ao chamado
22. As principais são três:
Com prontidão,
Com generosidade e,
Com heroísmo.
Com generosidade e,
Com heroísmo.
23. Com prontidão quer dizer, executando com rapidez o que Deus quer, não postergando a execução, "os cálculos lentos são estranhos à graça do Espírito Santo". Há que responder sem demora. Já ensina a sabedoria popular "Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje". Como diz um poeta: "As grandes resoluções,/ para seu melhor acerto,/ há que tomar ao passo/ e há que cumpri-las ao vôo/ ... Sou mais amigo do vento,/ senhora, que da brisa,/ e terá que fazer o bem de pressa,/ que o mal não perde um momento".
Os que postergam constantemente o seguir a chamada de Deus, encontram-se no lamentável estado da alma que tão bem descreve Lope de la Vega: "Quantas vezes o anjo me dizia:/ Alma apareça agora à janela,/ verá com quanto amor chamar porfia,/ E quantas, ó Formosura soberana,/ amanhã lhe abriremos, respondia,/ para o mesmo responder amanhã!".
Os Santos responderam com prontidão. Tal o caso de Abraão, tal o caso de Samuel Fala Senhor que seu servo escuta(I Sam 3,10). Em São Mateus se lê que Pedro e André, assim que foram chamados pelo Senhor imediatamente deixando as redes lhe seguiram (4,29). Em seu louvor diz São João Crisóstomo: "estavam em pleno trabalho; mas para ouvir o que lhes mandava, não se atrasaram, não disseram: Voltemos para casa e vamos consultar com nossos amigos, senão que deixando tudo o seguiram... Cristo quer de nós uma obediência semelhante, de modo que não nos demoremos um instante"; com prontidão como Santiago e João que deixando imediatamente as redes e a seu pai no barco foram atrás Dele; como São Mateus que ao escutar o chamado do Senhor se levantou e lhe seguiu (9,9); como São Paulo, instantaneamente ... imediatamente, sem pedir conselho a homem algum (Gal 1,17); como a Santíssima Virgem ao conhecer a vontade de Deus: Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38), dirigindo-se rapidamente (Lc 1,39) a casa da Isabel.
No tema da vocação há que seguir o conselho de São Jerônimo "rogo que se apresse, antes prefira cortar que desamarrar a corda que detém o barco na praia".
24. Com generosidade, ou seja, com perfeição deixadas todas as coisas (Lc 5,11). E deixadas com decisão: Nenhum que, depois de ter posto a mão no arado volta os olhos atrás, é apto para o Reino de Deus(Lc 9,62).
Alguns dizem querer servir ao Senhor, mas põem condições: Senhor, permita-me que antes vá dar sepultura a meu pai. Mais Jesus lhe respondeu: siga-me você, e deixa que os mortos enterrem a seus mortos(Mt 8,21-22).
Deus quer a entrega total. Quer nosso coração irrestrito e indiviso.
25. O heroísmo é a disposição dos que desejam de verdade seguir a Cristo, de modo tal que, como diz São Paulo, desejam morrer para estar com Cristo, e como diz Santo Tomás: "não se voltam atrás diante das empresas difíceis, mas que conduzem à glória de Deus e salvação das almas".
CAPÍTULO 4: ARDILOSAS OBJEÇÕES
26. Podemos dizer que, em geral, as dificuldades provêm de três setores:
1º- Dos homens mundanos,
2º- dos familiares carnais e,
3º- do próprio candidato. Embora muitas vezes as dificuldades se intercambiam.
Artigo 1: Dos homens mundanos em geral
27. A tentação maior é pedir conselho a muitos e deixar passar muito tempo, ou seja, a demora. Muitos aconselham demorar a decisão de concretizar a vocação, como se o mero fato de postergar e demorar fosse solucionar o problema: "Se os problemas se solucionassem com apenas deixar acontecer o tempo, não fariam falta governantes". Sustenta São João Bosco que "quem encontra desculpa uma vez para demorar a vocação, quase seguro que nunca a concretizará porque sempre encontrará novas desculpas.
28. São muitos os que querem sustentar este tremendo engano desculpando-se falsamente em textos da Sagrada Escritura:
- Alguns argumentam com a frase de São João que diz não creiam a todo espírito mas examinem aos espíritos se são de Deus (I Jo 4,1), querendo mostrar que convém dilatar a reflexão até o infinito, pretendendo ter uma certeza metafísica da vocação.
Há que examinar sempre e todo o necessário, mas em matérias duvidosas as coisas certas não necessitam discussão: "quem pede o ingresso não pode duvidar de que sua vocação venha de Deus, de quem é próprio conduzir ao homem por caminhos retos (Sal 142,10)". Por isso é triste ver que alguns se apóiem em uma longa e escusável deliberação para não fazer o que sabem que Deus lhes inspira.
Em última instância, é a quem compete admitir a quem corresponde discernir, isto é, fazer a "crítica" para ver se o candidato é movido pelo espírito de Deus ou se obra por engano, se for o desejo de perfeição espiritual o que o move ou se somente -como às vezes acontece- é a vaidade de espiar ou intrigar.
29. Dizem: Satanás se disfarça de anjo de luz (II Cor 11,14) e assim engana aos incautos com aparência de bem; por isso não é mister deliberar longo tempo.
É certo, muitas vezes que Satanás sugere "bens" com intenção de enganar, entretanto há que saber que só pode enganar aos sentidos corporais, já que no centro da alma só penetra Deus. O desejo autêntico e interior de consagrar-se a Deus não pode provir senão do Céu.
Ainda o caso em que o demônio, fingindo-se bom obrasse e falasse como um anjo bom, não cairia em um engano perigoso ou funesto lhe fazendo caso, quando se trata da vocação consagrada. O ingresso em religião é de si uma obra boa e própria de anjos bons. Não há nenhum perigo em seguir neste caso seu conselho. Dom Bosco dizia que "A vocação religiosa deveria abraçar-se embora viesse do demônio, porque sempre deve seguir um bom conselho embora nos venha de um inimigo". Só terei que resistir em caso de que incite a soberba ou a outros vícios.
Há que advertir que se o diabo -e ainda um homem- sugere a alguém entrar na religião, "tal sugestão não tem eficácia alguma se não ser atraído interiormente por Deus". De tal maneira que "seja quem for que sugere o propósito de entrar na religião, sempre este propósito vem de Deus".
30. O que pode ter mal resultado há que examiná-lo pedindo conselhos atentamente, não se pode entrar em religião com o perigo de apostatar ou chegar ao desespero.
A este engano respondemos com Santo Tomás dizendo que o mal resultado pode provir da coisa mesma ou do homem que a realiza.
Se provier da coisa, há que considerar que se o perigo for freqüente, é necessário deliberar; mas se o perigo só existe em contados casos (como acontece com a vocação), não é necessária uma longa deliberação, senão um pouco de cuidado e cautela para não cair nele alguma vez ou outra. Do contrário não se poderia empreender nenhuma obra humana: quem ao vento olha não semeará, e quem olha às nuvens não ceifará (Jo 11,4); diz o preguiçoso, no caminho há uma fera, um leão na praça (Prov 26,13) e a glosa comenta: "Muitos quando ouvem palavras de exortação, dizem que sim querem começar o caminho da santidade, mas que não podem segui-lo por medo a Satanás".
Outras vezes acontece que a coisa em si mesma é segura, mas tem maus resultados por razão do homem que muda seu propósito. Contudo, o fato de que alguns, abandonando seu propósito apostatem da vida religiosa e se façam piores que antes, não é motivo para voltarmos atrás ou diferir o ingresso à religião com a desculpa de uma maior deliberação. Do contrário, o mesmo terei que dizer sobre o acesso à fé e aos sacramentos, a estes diz a Sagrada Escritura: melhor seria não ter conhecido o caminho, que depois de conhecido voltar-se atrás (II P 2,21). Com a mesma razão tampouco deveríamos fazer obras de justiça porque se lê no Eclesiástico que quem da justiça se volta para pecado, Deus o destina à perdição (26,1).
31. Diz o livro dos Atos dos apóstolos: se a coisa for de Deus não a poderão destruir(5,39); e assim alguns, abandonando os propósitos imediatamente, justificam-se pensando que o desejo de ser religioso não necessariamente pode provir de Deus, porque de fato em muitos casos a apostasia destruiu o propósito de entrar na religião.
Esta objeção leva escondido o veneno de uma malícia herética. Desta cita os albigenses deduziram torcidamente que os corpos que se corrompem não foram feitos por Deus e que se alguém obtiver a graça ou a caridade já não pode condenar-se, proposições heréticas suficientemente refutadas e condenadas. Se assim agimos podemos cair em funestos enganos; com este mesmo critério poderíamos afirmar que, se o diabo pecou, não foi criado por Deus; se Judas apostatou, não foi eleito por Deus; se Simão o Mago caiu nesta heresia depois do Batismo, não foi obra de Deus o que Felipe o batizasse; acrescentemos as proposições de alguns que são semelhantes: "se o que entrou em religião sai, o primeiro propósito não vinha de Deus"; ou também "o zelo daqueles que o induziram a fazer-se religioso não era inspirado por Deus". Contra estes diz Santo Tomás: "Os intuitos de Deus nunca se destroem, segundo aquilo de Isaías: Minhas resoluções se sustentarão e todos meus desejos se cumprirão (Is 46,10)"... Deus, em seus intuitos imutáveis, inspira a alguns o propósito de entrar na religião, mas não lhes concede a graça de perseverar nela".
32. Outros finalmente querem ter uma segurança fora do comum de que em tal estado vão alcançar a perfeição, já que se um homem quer edificar uma torre, antes se senta e conta sua fortuna para ver se basta para pagar os gastos (Lc 14,28), e baixo este pretexto dilatam sua vocação.
Não se delibera sobre o fato de se desejar ter ou não a fortuna necessária, ou se edificar a torre ou não; da mesma maneira não há lugar a deliberação a respeito de se tendo o desejo de ingressar em religião pode ser de Deus ou não.
O temor de alguns de não chegar à perfeição entrando na vida religiosa é irracional e refutado pelo exemplo de tantos outros. A estes dizemos com Santo Agostinho: "confia em ti mesmo e por isso duvida. Jogue-se em Seu seio! Não tema que se afaste e caia. Jogue-se com segurança; Ele te receberá e te sarará".
Em definitiva, são todas falsas desculpas, verdadeiros enganos do demônio, que fazem que a alma tente justificar-se se baseando em falácias e em um mau uso das Sagradas Escrituras.
Artigo 2: Dos familiares carnais
33. Muito dano costuma causar às almas que desejam entrar na religião, ou deixar-se levar pelas tentações carnais dos próprios familiares, que geralmente, atendem mais à sensibilidade própria e à dor que leva apartar o filho ou filha que quer fazer-se religioso, que ao querer de Deus sobre eles. Ponhamos alguns exemplos:
34. São, sobretudo os pais os que primeiro começam a lamentar-se dizendo "deixar-me-á sozinha,(ou sozinho)"; "não pode me deixar assim"; tentando influir na conduta de seus filhos. Argumento que geralmente não aplicariam se esse mesmo filho se casasse ou se fosse viver longe. Tais pais egoístamente, possivelmente às vezes sem adverti-lo, não desejam no fundo o bem e a perfeição para seus filhos, pois não deixam que imitem aos verdadeiros seguidores de Nosso Senhor que deixando tudo o seguiram (Lc 5,11). Foi o mesmo Cristo quem aconselhou a um jovem que queria dar sepultura a seus pais: deixa que os mortos enterrem seus mortos, tu vem e me siga (Mt 8,22). Alguns "pais -dizia Dom Bosco- preferem ver seus filhos condenar-se a seu lado antes que salvar-se longe deles". Por isso exclama São Bernardo: "Ó pai sem entranhas!, Ó Mãe cruel!, cujo consolo é a morte do filho; que preferem vê-los perecer com eles antes que reinar sem eles".
Devem-se descartar as consultas aos parentes. A isto se refere São Jerônimo quando enumera os impedimentos que costumam pôr "agora -diz- sua irmã viúva, abraça-te meigamente; seus domésticos, com os que você cresceu, dizem-lhe: A quem temos que servir se você nos deixa? Agora a que foi sua ama, já anciã: seu pai nutrício, que ocupa um segundo lugar em seu coração depois de seu pai natural, suplicam-lhe: espera a que morramos e nos sepulte"; "o ardiloso adversário, como se vê expulso do coração dos bons, vai à procura daqueles a quem estes amam e lhe dirige por meio deles palavras aduladoras, lhes fazendo acreditar que são amados mais que qualquer outro; para que assim enquanto a força do amor perfura o coração, ele possa introduzir facilmente a espada de sua persuasão até os fundamentos mais íntimos da retidão".
35. Outros advertem fazendo acreditar em seus filhos um iminente fracasso: "aí você vai fracassar", "você vai se arrepender, vai ir mau". Advertências que não põem se fosse contrair matrimônio, sendo que neste estado estará muito mais exposto às tentações dos inimigos da alma. Não parece razoável pensar em um fracasso em um ambiente onde se busca sobretudo a vontade de Deus, e onde se têm os meios mais eficazes à mão para crescer na vida espiritual; sim se deveria temer mais daquele que em meio dos vaivens do mundo atual tem que avançar com um plano efetivo de santidade, que se verá exigido por não ter um coração indiviso para Deus.
36. Outros: "É filho único", "não pode Deus levá-lo". Também Isaac era o filho único do patriarca Abraão, e este não duvidou em ir sacrificá-lo quando Deus lhe manifestou sua vontade. Também Cristo era filho único. Esta expressão não tem nenhum valor. São numerosos na história da Igreja os pais que tiveram que ofertar seus filhos únicos para que se constituam em grandes Santos que com suas vidas iluminaram o mundo.
37. "Meu pai se opõe", lamentam-se alguns jovens que sentem que seu coração está entre dois fogos, o que quer Deus e o que desejam os pais. Tais devem compreender que os familiares carnais geralmente se deixam levar mais pelo sentimento e portanto tentam obstaculizar por todos os meios o afastamento de seus filhos. Há que recordar as palavras do Senhor: quem ama a seu pai e à sua mãe mais que a mim, não é digno de mim (Mt 10,37). Quantos futuros bons e Santos religiosos se perdem porque não sabem vencer esta tentação! Santo Afonso Maria de Ligorio expressou que a maior tentação que teve em sua vida foi quando ao despedir-se de seu pai, este o abraçou durante três horas seguidas; a cristandade sempre agradecerá a integridade que teve naquele momento, a quem logo seria um sábio Doutor da Igreja.
É um erro vacilar o entrar em religião por não contrariar os desejos dos familiares. São Jerônimo em sua carta a Eliodoro lhe chega a dizer: "Embora seu pequeno filho te pendure do pescoço, embora sua mãe com os cabelos desgrenhados e rasgando os vestidos te mostre os peitos que te amamentaram; embora seu pai se atire no limiar, passa por cima dele e voa sem uma lágrima nos olhos para o sinal da Cruz. Neste caso, o único modo de ser piedoso é ser cruel... O inimigo empunha sua espada para me matar, e eu tenho que me acomodar nas lágrimas de minha mãe? Tenho que desertar da tropa por meu pai, a quem por causa de Cristo não devo nem a sepultura?".
É um erro vacilar o entrar em religião por não contrariar os desejos dos familiares. São Jerônimo em sua carta a Eliodoro lhe chega a dizer: "Embora seu pequeno filho te pendure do pescoço, embora sua mãe com os cabelos desgrenhados e rasgando os vestidos te mostre os peitos que te amamentaram; embora seu pai se atire no limiar, passa por cima dele e voa sem uma lágrima nos olhos para o sinal da Cruz. Neste caso, o único modo de ser piedoso é ser cruel... O inimigo empunha sua espada para me matar, e eu tenho que me acomodar nas lágrimas de minha mãe? Tenho que desertar da tropa por meu pai, a quem por causa de Cristo não devo nem a sepultura?".
38. Às vezes, costumam exagerá-los inconvenientes familiares, econômicos, sociais, etc. para demorar a entrada. A isto se deve responder com um espírito de fé; há que dar-se conta que se deve procurar primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto será acrescentado (Mt 6,13); que se Deus chama também outorgará com acréscimo os meios que façam falta para suprir a ausência na família. No fundo é uma falta de confiança na mão providente de Deus sobre seus filhos: os olhos de Deus estão fixos em seus fiéis (Sal 101,6). Deus não se deixa jamais ganhar em generosidade, e portanto jamais abandonará a uma família que entregou a flor de seus frutos a seu serviço.
39. O respeito humano do "que dirão" outros parentes, afasta a alguns de sua vocação. Como se terei que atender primeiro o parecer de outros membros da família antes que o de Deus. Pouco importa o opinar dos homens quando é claro o parecer de Deus. Seria uma perda invalorável desprezar os bens da vida religiosa por deixar-se levar pelo "que dirão", geralmente quando esse vociferar procede, como geralmente acontece, de familiares a quem pouco importa a religião e a vida eterna. Há que obedecer a Deus antes que aos homens (Act 4,18).
40. São às vezes os familiares os que exageram os sacrifícios da vida religiosa: "é uma vida muito sacrificada", "é muito esforço" ,"não vai poder sobrelevá-los". Costumam ser os mesmos que dizem: "os padres sim que vivem bem". É certo, é uma vida sacrificada, porque quem se consagra a Deus não procura as comodidades que possa brindar o mundo, antes tenta imitar a Jesus Cristo que morreu na cruz por amor a ele. O bom religioso sofre um martírio em vida, mas é justamente este caminho régio da cruz o que lhe outorga a felicidade aqui nesta terra e mais ainda no céu. Estes familiares se esquecem de que o Senhor prometeu o cento por um nesta vida e depois a vida eterna a aqueles que lhe sigam; que se dá de comer às aves do céu e veste os lírios do campo, jamais abandonará aos que a ele se entreguem, porque como dizia Santa Teresa, "O Senhor jamais abandona aos que só por Ele se aventuram". E que se Ele chama e se houver verdadeiro amor em entregar-se a ele, também dará as graças para levar adiante toda dificuldade que terá que salvar em seu caminho para o céu. Por isso em meio das cruzes, os bons religiosos são os homens mais felizes da terra. Dom Bosco animava a seus rapazes "e não temam que lhes faltem as forças necessárias para cumprir com as obrigações que o estado religioso impõe; tenham, pelo contrário, grande confiança porque Deus, que começou a obra, fará que tenham perfeito cumprimento estas palavras de São Paulo: quem começou em vós a boa obra, a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo (Flp 1,6)".
41. "Sou sua mãe, sei o que para ele é melhor". Ninguém duvida que todas as boas mães desejam o melhor para seus filhos, mas é muito fácil que quando tiverem que aconselhar sobre o afastamento físico do filho, deixem-se levar mais pelos sentimentos que pela razão; geralmente "o melhor para ele" sempre é que fique a seu lado.
Repitamos uma vez mais que os pais são inimigos quando se trata do tema da vocação, "especialmente, porém, convém ocultar a vocação aos amigos e aos pais; é esta a doutrina de São Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho, São Bernardo, Santo Tomás e outros, como São João Crisóstomo", quem falando em términos gerais escreve "Quando: os pais impedem as coisas espirituais, nem sequer devem ser reconhecidos como pais".
Artigo 3: Do próprio candidato
42. Os enganos que procedem do próprio candidato afetam à inteligência, à vontade e também à sensibilidade.
A. Enganos que afetam à inteligência
43. "Não sou digno de ser sacerdote". Ninguém é digno para sê-lo, ante os mistérios excelsos que celebram os sacerdotes. Em rigor, ninguém pode considerar-se digno para fazer-se credor do direito de celebrá-los. A vocação é uma graça especialíssima de Deus, e, portanto gratuita; se Ele a der, dá também as disposições suficientes para poder exercer dignamente o ofício sacerdotal. Contudo, cada dia o sacerdote, o bispo e o Papa diz ao mostrar a Hóstia consagrada antes da Comunhão "Senhor, eu não sou digno". Se por não ser digno se deixasse a vocação, não haveria um só sacerdote sobre a terra.
44. "Não tenho qualidades, nem simpatia, nem convencimento, não sirvo para fazer apostolado". Não são precisamente essas as qualidades que se necessitam para ter vocação. Basta com o chamado de Deus. Tampouco Moisés tinha qualidades para falar com os judeus e, entretanto levou adiante a obra da liberação de Israel de modo admirável. O bom religioso põe sua confiança em Deus, não em suas forças; se assim o fizer, fracassa. Os que confiam no Senhor são como o monte Sião: não treme, está firme para sempre (Sal 125,1); quem confiou no Senhor e foi defraudado? (Ecl 2,10).
45. "fui muito pecador", "Deus não pode pôr os olhos em mim". Tremendo erro. Deus chama como quer, quando quer, onde quer e a quem quer; todo o imenso mar de nossos pecados são nada ante uma ínfima gota da misericórdia de Deus. Que penoso tivesse sido que Santo Agostinho obrasse e se deixasse levar por estes pensamentos; entretanto, que foi um grande pecador chegou a ser Doutor da Igreja, Pai do Ocidente e um dos teólogos maiores de todos os tempos. Ante esta realidade há que responder com o dito popular: "o passado pisado", e não por isso deixar de fazer o que Deus peça. Assim obrou Santa Maria Madalena, e hoje é uma das estrelas mais brilhantes do Reino dos Céus, e assim atuaram tantos Santos que obraram pensando mais na misericórdia de Deus que na miséria de seus pecados.
46. "Se hoje todos os clérigos e religiosos estão relaxados, para que vou me tornar padre". É muito áspero justificar-se nisto para não ser um santo sacerdote. É como o que diz que porque conhece que a Missa concorre gente que é logo depravada em sua vida privada, então ele não vai a Missa. O grande exemplo, o grande imitável, é Jesus Cristo, aquele que disse sede perfeitos como meu pai celestial é perfeito (Mt 5,48), aquele que é o mesmo ontem, hoje e sempre. Em quem não pecou (I Jo 3,5), porque não houve engano em sua boca(I P 2,22), que não é depravado, nem progressista, nem cismático, nem nenhum vício que podemos hoje observar em alguns consagrados.
47. "eu gosto do ensino, da música, da medicina, do canto... "O homem que ama de verdade, não repara em renunciar a seus próprios interesses com tal de agradar à pessoa amada. O amor verdadeiro é o de benevolência, querer o bem para o outro. Deixar-se levar pelos gostos pessoais é perder de vista o fim da vida, é sacrificar os interesses eternos em detrás dos temporais. É esquecer esse fim que se deve alcançar como o negócio mais precioso da vida: que lhe vale ao homem ganhar o mundo inteiro se perder sua alma? (Lc 9,25), ainda se para obtê-lo devesse renunciar aos projetos pessoais. Os interesses de Deus estão por sobre os nossos. Além disso é uma desculpa vã, porque de fato como sacerdote ou religioso se pode e se deve ensinar, dirigir coros, ocupar-se de obras assistenciais, etc.
48. "Como leigo comprometido posso fazer muito mais". Pode ser que sim, isso é justamente o que tem que discernir quem se exponha a eleição de estado, e a possibilidade de que Deus o chame à vida religiosa. Mas para que assim seja, deve haver razões de verdadeiro peso que assim o sustentem; geralmente este pensamento está acostumado a ser um simples conformismo, renunciar ao plano da santidade, ao plano de máxima, por um menos ambicioso. É a proposta própria do morno, que só lhe interessa salvar-se, mas sem aspirar a todo o santo que pode chegar a ser. Quem com este argumento só procure conformar-se, pense em todas as graças que desperdiça por não seguir o verdadeiro querer de Deus, e das que ele é responsável. Porque não é nem frio nem quente, porque é morno, vomitar-te-ei de minha boca (Ap 3,16) poderia chegar a escutar algum dia.
49. "Se em todos lados se pode servir a Deus". Digamos com Santo Afonso "Sim, em todas partes pode servir a Deus o que não é chamado à vida religiosa, mas não assim o que, sendo chamado a ela, quer ficar no mundo; é muito difícil que este leve boa vida e sirva a Deus".
B. Enganos que mais afetam à vontade
50. "Tenho namorada e a quero", também as tiveram alguns Santos sacerdotes antes de entrar em Seminário, mas se Deus me chama a algo muito maior? Se a quiser, justamente por isso devo lhe explicar qual é minha verdadeira vocação; pior seria lhe arruinar a vida, e possivelmente a salvação, pelo simples gosto de ser marido dela e pai de seus filhos, quando Deus me tem destinado para outro estado, e tem destinado me dar graças que não vai dar necessariamente para o matrimônio dado o caso que me chame para a vida consagrada, e vice-versa.
51. "Melhor esperar e entrar mais adiante, de tal maneira que se acostumem meus familiares". Já respondemos com claridade a sutil tentação da demora do tempo.
52. "Quero ter uma segurança total". Este é um erro; há quem para ter a certeza da vocação esperam que lhes apareça um anjo ou que há que cair de um cavalo, a certeza que podemos ter de nossa vocação é moral, não física nem metafísica. Basta tendo razões suficientes para saber que neste estado de vida se vai dar maior glória a Deus e bem às almas. "Para saber se Deus quer que alguém seja religioso, não é necessário aguardar que o mesmo Deus lhe fale ou que do céu lhe envie um anjo para manifestar sua vontade. Nem tampouco é necessário um exame de dez doutores para resolver se a vocação deve ou não seguir-se; o que importa é corresponder a ela e acolher o primeiro movimento da graça sem preocupar-se dos desgostos ou da tibieza que possam sobrevir; porque, fazendo-o assim, Deus procurará que tudo redunde em sua maior glória".
53. "Deixar tudo e ficar sem nada!". A vocação religiosa é deixar tudo para obter tudo; é deixar as coisas deste mundo para aferrar-se ao Todo que é Deus. Dizia Santa Teresa: "Não se dá este Rei senão a quem não lhe dá tudo". Longe de nos lamentar do que deixamos, devemos considerar a bondade de Deus que quer dar-se a nós. Devemos pensar nas palavras de nosso Senhor quem põe a mão no arado e olhe para trás não é digno de mim (Lc 9,62). Dizia São João da Cruz: "depois que me pus em nada, acho que nada me falta".
54. "O tema da vocação, não será uma fuga?". Longe de ser uma fuga o autêntico chamado à vocação religiosa é uma opção, uma opção pelo amor, pela verdade, por dar-se tudo Àquele que tanto lhe devemos. Assim como ninguém foge para meter-se em uma cárcere, não se foge para abraçar-se à cruz.
55. "Se fosse homem, seria sacerdote", costumam dizer algumas jovens quando sentem a iminência do chamado de Deus; o mais provável é que se fossem homens dissessem "se fosse mulher seria freira". São todas veleidades, falsas desculpas com as que o demônio muitas vezes perde preciosas vocações à vida consagrada.
C. Erros que mais afetam à sensibilidade
56. "Imagino-me casado, não me imagino sacerdote". Costuma o diabo pôr falsos sonhos, imaginações, fantasias que são simples produtos de nossa sensibilidade. O juízo que dita a vocação de minha vida deve ser racional, e não levado de ilusões, ou probabilismos que jamais ocorrerão na realidade. A vocação não é questão de imaginação.
57. "Não o sinto". Já está respondido na objeção anterior; não sempre, nem necessariamente, nem ordinariamente o chamado à vocação é sensível, geralmente não o é. Só devemos nos deixar levar pela sindéresis da razão, para nos aferrar só àquilo que objetivamente seja verdade. É triste ver um jovem escravo de seus sentimentos, que não o deixam pensar e atuar de acordo a seu pensamento. É possivelmente a pior e mais danosa das justificações: quem não vive como pensa, termina pensando como vive. Veja o que escreve São Francisco de Sales: "para ter um sinal de verdadeira vocação, não precisam experimentar uma perseverança sensível; basta que persevere a parte superior do espírito; por isso não deve crer-se falta de verdadeira vocação a pessoa chamada que, antes de realizá-la, não sente aquelas afeições sensíveis que sentia em um princípio; mas sim, pelo contrário, sente repugnâncias e desmaios que acaso lhe façam vacilar, parecendo que tudo está perdido. Não; basta que a vontade siga constante em não querer abandonar o divino chamamento, e que tenha algum afeto para ele.".
58. "Que vergonha se sair". Maior vergonha seria apresentar-se no dia do juízo sem haver feito ante Deus o que ele queria de mim. Não há nenhuma vergonha em sair de um Noviciado ou de um Seminário; ao contrário, em caso de que haja motivos autênticos para sair, essa alma é digna de louvor por sua integridade, porque só se deixa levar por motivos sobrenaturais; é um homem de princípios, que faz de sua vida um canto à vontade de Deus. Vergonha seria ver alguém sair de um prostíbulo.
59. "Eu não gosto, eu gosto das mulheres, eu gosto das crianças". É o mais lógico e o mais normal, seria de temer o contrário. Devemos compreender que só Deus é "o único Senhor que merece ser servido" (São Francisco de Borja), e "a quem servir é reinar".
60. Em definitiva, são todas falsas desculpas, falácias, "sutilezas", veleidades, sensibilidades, com as que o demônio arromba muitas vezes aos jovens -e a não tão jovens- para que se afastem do chamado de Deus. São estes os numerosos esforços do inimigo, o que também devem nos fazer pensar o imenso valor que tem uma vocação à vida consagrada, e quantos são os esforços que o diabo faz para afastá-la de Deus, porque como dizia Dom Bosco, "a vocação é a roda mestra da vida", fazendo uma comparação com os relógios antigos que tinham como eixo principal uma roda que chamavam mestra, a qual rota fazia imprestável e inconsertável o relógio. O mesmo acontece com cada vocação.
D. Dúvida sobre a vocação
61. O próprio Dom Bosco advertia que "quem se consagra a Deus com os Santos votos faz um dos oferecimentos mais preciosos e agradáveis à sua divina majestade. Mas o inimigo de nossa alma, compreendendo que por este meio a pessoa se emancipa de seu domínio, está acostumado a turvar sua mente com mil enganos para lhe fazer retroceder e e fazer retornar aos caminhos tortuosos do mundo. O principal destes enganos consiste em lhe suscitar dúvidas sobre a vocação, às quais segue o desalento, a tibieza e, freqüentemente, a volta ao mundo, que tantas vezes tinha reconhecido traidor e que, por amor a Jesus Cristo tinha abandonado".
62. O diabo sabe que uma alma entregue por inteiro a Deus é uma alma perdida para ele, por isso tentará por todos os meios inquietá-la com dúvidas para apartá-la do caminho do céu.
A alma que em consciência diante de Deus decidiu de modo indubitável sua vocação, deve saber que toda tentação posterior necessariamente é do demônio. "Se, porventura, amadíssimos filhos, -continua São João Bosco- assaltar-lhes esta perigosa tentação lhes responda imediatamente a vós mesmos que, quando entraram na congregação, Deus lhes tinha concedido a graça inestimável da vocação, e que se esta lhes parecer agora duvidosa, é porque são vítimas de uma tentação, a que deram motivo, e que devem desprezar e combater como uma verdadeira insinuação diabólica. Costuma-se a mente agitada dizer a quem duvida: Você poderia obrar melhor em outra parte. Respondam imediatamente com as palavras de São Paulo: Cada um na vocação a que foi chamado, nela permaneça (I Cor 7,20). O mesmo Apóstolo encarece a conveniência de continuar firmes na vocação a que cada um foi chamado: E assim vos rogo que andem como convém na vocação a que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com paciência) (Ef 4,1s). Se permanecerem em seu instituto e observam exatamente as regras, estão seguros de sua salvação".
63. É evidente que considerando as coisas objetivamente não há lugar a tanta dúvida tratando-se -conhecida a vocação divina- da eleição do mais perfeito. Assim diz Dom Bosco que "falando com jovens, não encontro outra pérola mais que o conhecer a própria vocação, principalmente se forem chamados ao altar. Sim, a vocação ao estado eclesiástico é pérola tão preciosa que me parece que não se pode encontrar outra que se possa comparar com ela". São tantos os bens desta vida que diz São Pedro Julián Eymard: "se de momento se soubesse o que é a vida religiosa, de súbito se tomariam os conventos e ninguém ficaria no século".
64. "Em tanto pois, que seu espírito e seu coração se encontrem agitados pelas dúvidas ou por alguma paixão, recomendo-lhes encarecidamente que não tomem deliberação alguma, porque tais deliberações não podem ser conforme à vontade do Senhor, o qual, conforme diz o Espírito Santo, não está na comoção (1 Reis 19,11). Nestes transes lhes aconselho que se apresentem a seus superiores, abrindo-lhes sinceramnte seu coração e seguindo fielmente seus avisos". Sempre, antes de deixar a vida religiosa, levados de semelhantes tentações, deve-se consultar ao superior ou a um prudente diretor espiritual: "Desgraçado quem esconde as dúvidas de sua vocação ou tomada a resolução de sair da sociedade sem haver-se antes aconselhado muito e sem o parecer de quem dirige sua alma! quem tal fizesse, poria em grande perigo sua eterna salvação".
CAPÍTULO 5: A PERSEVERANÇA NA VOCAÇÃO
65. A vocação ao estado religioso pode considerar-se como a pérola preciosa do Evangelho que devemos guardar com grande zelo e com a maior diligência. Santo Afonso coloca três meios para não perdê-la, e são: segredo, oração e recolhimento.
"Acima de tudo, falando em geral, é necessário que a vocação se tenha secreta a todos, exceto ao diretor espiritual, porque outros, ordinariamente, não sentem escrúpulo de dizer aos jovens chamados ao estado religioso que em todas partes, e ainda no mundo, pode-se servir a Deus ".
66. "Há que ter presente que as vocações se conservam só com a oração. Quem deixa a oração deixará certamente a vocação; é necessário orar, e orar muito; por isso, além de fazer meia hora de oração pela manhã e pela tarde, faça-se irremissivelmente todos os dias a visita ao Santíssimo Sacramento e a Maria Santíssima, para obter a perseverança na vocação, e não deixe o religioso de comungar várias vezes. Medite freqüentemente sobre a vocação, considerando quão grande é o favor que Deus lhe fez chamando-lhe a si. Quanto mais fiel se conserve em segui-la, quanto mais segura terá sua salvação eterna; pelo contrário, quão grande é o perigo de condenar-se a que se expõe se for infiel!
67. "Em terceiro lugar é indispensável o recolhimento, e este não se poderá alcançar sem o afastamento das conversações do mundo. O que se requer no século para perder a vocação? Nada; bastará um dia de recreio, um dito de um amigo, uma paixão pouco mortificada, uma pequena afeição, um pensamento de temor, um desgosto não reprimido. Quem não abandona estes passatempos deve estar convencido de que indubitavelmente perderá a vocação. Ficará com o remorso de não havê-la seguido mas certamente não a seguirá". Até aqui Santo Afonso, doutor da Igreja.
A perseverança na vocação é uma graça que devemos saber pedir e cuidar diariamente; e jamais abandonar os meios que estejam a nosso alcance para preservar este tesouro dos inimigos da alma.
68. Como perseverar na Santa vocação se identifica, de algum modo, com o perseverar no bem, e mais particularmente, com a perseverança final, parece-nos conveniente pôr neste diretório as principais idéias respeito a esta última.
69. A perseverança perfeita ou final exige um auxílio especial de Deus, que não é outra coisa que uma moção de Deus que conserva a graça e a preserva de todos os perigos e tentações. O elemento formal da final perseverança é a união do estado de graça com a morte.
70. A perseverança final é efeito próprio e exclusivo da divina predestinação, pela que certamente se salvam todos quantos se salvam. A predestinação é uma especialíssima providência de Deus sobre todos e só os predestinados, que nasce daquele especialíssimo amor de predileção pelo que escolhe aos predestinados.
71. Daí que seja evidente que a perseverança final é efeito de uma graça especialíssima de Deus, que consiste em: um auxílio atual especialíssimo e um singularíssimo amparo externo de Deus, em ordem a que coincidam o estado de graça com o momento da morte.
72. Ensina-se na Sagrada Escritura: Foi arrebatado para que a maldade não pervertesse sua inteligência e o engano não extraviasse sua alma(Sab 4,11). Pois sua alma era grata ao Senhor; e este se apressou em tirá-lo do meio da maldade(Sab 4,14). Velem pois, porque não sabem nem o dia nem a hora (Mt 25,13).
73. O Concílio II de Orange definiu: "Os Santos e os justos devem sempre implorar o auxílio de Deus a fim de que possam chegar ao bom fim e perseverar no bem obrar". E o Concílio de Trento chama à perseverança final o grande dom, que só Deus pode conceder. Por isso se ensina: "Se alguém disser que o justificado pode sem especial auxílio de Deus perseverar na justiça recebida ou que com ele não pode, seja anátema".
74. A perseverança final não pode ser merecida de condigno nem de congruência propriamente dito, por isso se ensina: quem está de pé cuide de não cair (I Cor 4,4). Assim, queridos meus, da mesma maneira que obedecestes sempre, não só quando estava presente, mas também muito mais agora que estou ausente, trabalhem com temor e tremor por sua salvação, pois Deus é quem obra em vós o querer e o obrar, como bem lhe parece (Fl 2,12-13).
75. Deus é libérrimo segundo aquilo de amei a Jacó e odiei a Esaú (Rm 9,13) e terei misericórdia de quem tem misericórdia e terei compaixão de quem tem compaixão...não é de quem quer nem de quem corre, mas sim de Deus, que tem misericórdia...assim tem misericórdia de quem quer e a quem quer lhe endurece (Rm 9,15-18). Firmemente convencido de que quem iniciou em vocês a boa obra, irá consumando até o dia de Cristo Jesus (Fl 1,6). Tanto o começo como o término da boa obra vem de Deus. É um dom gratuito.
76. O Concílio de Trento a respeito ensina claramente três coisas:
1º A perseverança final depende única e exclusivamente de Deus;
2º é o dom por antonomásia "magnum donum";
3º não se enumera entre os objetos de mérito dos justos, mas bem sempre se acrescenta: "sim, com tal de que morra em graça".
2º é o dom por antonomásia "magnum donum";
3º não se enumera entre os objetos de mérito dos justos, mas bem sempre se acrescenta: "sim, com tal de que morra em graça".
77. A graça da perseverança final pode e deve pedir-se humildemente de Deus para nós mesmos ou para outros, mas não de modo infalível. O Concílio Araucisano II ensina que: "a ajuda de Deus deve ser implorada por todos os justificados para poder perseverar no bem e chegar ao porto da salvação". Mas esta oração não é infalível, porque uma das condições que exige a oração para ser infalível é a perseverança no orar. Neste sentido a perseverança deve ser o princípio da oração perseverante, não o término ou objeto obtido por ela.
78. Assim como analogamente vale esta doutrina a respeito da perseverança final para a perseverança na vocação consagrada, assim analogamente vale para que toda Congregação religiosa persevere no bom espírito e não degenere em relaxação. Sempre há que rezar muito impetrando de Deus a graça da perseverança no bem, na fé, na caridade, na vocação, no final, para cada um de nós, para nossos irmãos em religião, para os irmãos na fé, para todos os homens e mulheres de boa vontade, porque sempre será verdade que "a muitos se dá a graça aos quais não se concede perseverar nela".
CAPÍTULO 6: A MODO DE CONCLUSÃO
79. Queremos terminar este Diretório com uma seleção de textos que manifestam o pensamento do Papa João Paulo II e algumas reflexões que nos inspira aquele a quem consideramos como o Pai de nosso Instituto, já que seu esplêndido magistério sempre foi para nós fonte fecunda em que manifestamos nossa sede de fidelidade ao Senhor.
Artigo 1: Importância
80. Deve-se dizer que o problema das vocações sacerdotais -e também das religiosas, tanto masculinas como femininas- é o problema da Igreja: "fundamental", "pelo que tenho muito interesse de modo muito especial", "que requer maior atenção", "central", "do futuro", "vital".
"O problema das vocações afeta à própria vida da Igreja".
81. O tema das vocações "afeta à Igreja em uma de suas notas fundamentais, que é a de sua apostolicidade".
82. "Escassez de clero quer dizer escassez daqueles que celebram a Eucaristia".
Artigo 2: Número
83. É falso acreditar que não há vocações; muito pelo contrário, há muitas: "a vocação está em germe na maioria dos cristãos"; Deus "semeia de mãos cheias pela graça os gérmenes de vocação"; inclusive "numerosas vocações sacerdotais e religiosas (germinam) neste primeiro encontro com Cristo" (referindo-se à Primeira Comunhão).
Artigo 3: Busca
84. As vocações existem, mas há que buscá-las. "Deus chama a quem quer por livre iniciativa de seu amor. Mas quer chamar mediante nossas pessoas... Não deve existir nenhum temor em propor diretamente a uma pessoa jovem, ou menos jovem, as chamadas do Senhor". "O Senhor é sempre quem chama, mas é preciso favorecer a escuta de seu chamado e respirar a generosidade da resposta". Segundo o Padre Alberoni lhe pareceu que Jesus Cristo lhe dizia: "Você pode se equivocar, mas eu não me equivoco. As vocações vêm só de mim, não de ti; este é o signo externo de que estou com (vocês)". Procurar as vocações é, também, propô-las: "...com paixão e discrição, sede despertadores de vocações". Cristo habitualmente "chama através de nós e de nossa palavra. Por conseguinte, não tenham medo de chamar. Introduzem-se em meio dos jovens. Vão pessoalmente ao encontro deles e chamem". A pastoral vocacional é a missão da Igreja "destinada a cuidar do nascimento, o discernimento e o acompanhamento das vocações, em especial das vocações ao sacerdócio".
Artigo 4: Comunidades vivas
85. "A família, igreja doméstica, é o primeiro campo onde Deus cultiva as vocações. Por isso há que saber que uma reta e esmerada pastoral familiar é de por si vocacional. Há que formar aos pais na generosidade para com Deus se chama a algum de seus filhos, até mais, lhes ensinar a pedir em favor da Igreja para seus filhos tão inestimável dom".
86. "Um critério ... para dizer que uma paróquia, uma comunidade católica, é realmente amadurecida, é que deve ter vocações. Com as vocações sacerdotais, e as outras, mede-se a maturidade de uma comunidade, de uma paróquia, de uma diocese". "Toda comunidade tem que procurar suas vocações, como sinal incluso de sua vitalidade e maturidade. Há que reativar uma intensa ação pastoral que, partindo da vocação cristã em geral, de uma pastoral juvenil entusiasta, dê à Igreja os servidores que necessita". "Ao terminar este encontro breve, desejo me dirigir idealmente a todos os religiosos e sacerdotes que vivem serenamente dia a dia sua vocação, fiéis aos compromissos adquiridos, construtores humildes e escondidos do Reino de Deus, de cujas palavras, comportamento e vida irradia o gozo luminoso da opção que fizeram. São precisamente estes religiosos e sacerdotes, os que com seu exemplo aguilhoarão a muitos a acolher em seu coração o carisma da vocação". "Os institutos religiosos devem manter um sentido firme e claro de sua identidade e missão próprias. Um estado contínuo de mudança, uma incoerência entre como se expressam os valores e ideais, e como se vivem de fato, uma introspecção, uma ênfase exagerada nas necessidades dos membros como opostas às necessidades do Povo de Deus, freqüentemente são obstáculos fortes para aqueles que sentem a chamada de Cristo: vêem e me siga".
87. "As vocações são a comprovação da vitalidade da Igreja. A vida engendra a vida...; são também a condição da vitalidade da Igreja... Estou convencido de que - apesar de todas as circunstâncias que formam parte da crise espiritual existente em toda a civilização contemporânea -o Espírito Santo não deixa de atuar nas almas. Mais ainda, atua ainda com maior intensidade".
Artigo 5: Formação
88. Sem boa formação Deus não abençoa com abundância de vocações. Há "que fazer intensos esforços por fomentar as vocações e procurar a melhor formação sacerdotal possível nos seminários. Abundância de vocações e uma eficaz formação dos seminaristas: eis aqui duas provas da vitalidade da Igreja". "O que há que fazer é buscá-las e logo, coisa muito importante, é preciso encontrar para estas vocações uma formação adequada. Diria que a condição de uma verdadeira vocação é também uma formação justa. Se não a encontrarmos, as vocações não chegam e a Providência não nos dá isso".
89. Parecesse que alguns não têm vocações pela tentação de laicizar o sacerdócio, ou seja, por má formação. "Podemos olhar confidencialmente para o futuro das vocações, podemos confiar com a eficácia de nossos esforços que olham a seu florescimento, se afastarmos de nós, de modo consciente e decisivo essa particular tentação eclesiológica de nossos tempos que, desde diversas partes e com múltiplas motivações, trata de introduzir-se nas consciências e nas atitudes do povo cristão. Quero aludir às propostas que tendem a laicizar o ministério e a vida sacerdotal, a substituir aos ministros sacramentais por outros ministérios julgando que respondem melhor às exigências pastorais de hoje, e também a privar à vocação religiosa do caráter de testemunho profético do Reino, orientando-a exclusivamente para funções de animação social ou inclusive de compromisso diretamente político. Esta tentação afeta a eclesiologia, como se expressou lucidamente o Papa Paulo VI ... neste ponto, o que nos aflige é a hipótese, mais ou menos difundida de certas mentalidades, de que se possa prescindir da Igreja tal como é, de sua doutrina, de sua constituição, de sua origem histórica, evangélico e hagiográfico, e que se possa inventar e criar uma nova Igreja conforme determinados esquemas ideológicos e sociológicos, também eles mutáveis e não garantidos por exigências eclesiásticas intrínsecas. Assim vemos às vezes como os que alteram e debilitam à Igreja neste ponto não são tanto seus inimigos de fora, quanto alguns de seus filhos de dentro, que pretendem ser seus livres autores ".
90. Parece que segue sendo verdadeiro o que nos adverte Santo Afonso: "...advirta-se que se o seminário estiver bem dirigido será a santificação da diocese, e se não estiver será sua ruína ...Quantos jovens entram no seminário como anjos e breve tempo se permutam em demônios! ... E saiba-se que de ordinário nos seminários abundam os males e os escândalos mais do que sabem os bispos, que as mais das vezes são os menos inteirados". Por isso não é de assombrar que os jovens prefiram aqueles seminários onde têm a segurança de que os têm que formar bem. Quem quer entregar toda sua vida ao Senhor não está disposto, geralmente, a que a façam esbanjar. Muito poucos são os que se entusiasmam por deixar o mundo, para encontrar mais mundo no seminário.
91. Nestes tempos de poucas vocações, muitas vezes os que não as têm, consideram que é pecado o ter muitas vocações, e atacam sem piedade a quem as têm. Por isso há que saber ser santamente decidido em não tolerar nada que as possa impedir. Para isso há que estar disposto até o martírio, se for necessário, sabendo manter uma firmeza inquebrável para ser fiel a Deus, que é o Autor de toda vocação e o principal interessado em seu florescimento. Dito de outra maneira, não há que pôr impedimentos à obra de Deus. Se não abençoar com abundantes vocações, é que estamos pondo obstáculos à ação de sua graça. Dizia São João Crisóstomo: "Há muitos e há poucos sacerdotes; muitos de nome, mas poucos por suas obras" e esta é a razão principal da escassez de vocações sacerdotais.
92. E assim como Deus é muito generoso em suscitar vocações quando se dão as condições adequadas, assim há que ser generosos em enviar as vocações já florescidas, em sacerdotes e religiosas, onde seja necessário, tendo a certeza de que "Deus não se deixa ganhar em generosidade por ninguém", que sempre será verdade que "quem semeia com mesquinharia, colherá também com mesquinharia; quem semeia em abundância, colherá também em abundância" (II Cor 9,6).
93. O "centro de toda pastoral vocacional" é a oração. "É o valor primário e essencial no que respeita à vocação". A vocação é dom de Deus devotado livremente ao homem e "coloca-se por sua natureza no plano do mistério"; é um mistério de fé e de amor. Por isso ensinou nosso Senhor Jesus Cristo: Roguem ao dono da colheita que mande operários à sua messe (Mt 9,37 ss; Lc 10,2).
94. Enfim: "Cada vocação é um ato irrepetível do amor de Deus".
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